Pierros posam para foto em frente ao Teatro Municipal (1919)
A Belle Époque Tropical
os primeiros anos de vida da avenida
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“O Rio Civiliza-se!”, é a expressão mais corrente após a conclusão da Avenida Central. Baniu-se do centro da cidade a presença dos humildes e permitiu que a burguesia ganhasse as ruas, caminhando por um novo Rio de Janeiro de rosto parisiense, de avenidas largas, belos jardins e chafarizes com seus desfiles carnavalescos civilizados;sem os grosseiros modos do Zé Pereira, onde grande personalidades desfilam e as mulheres começam a ganhar sua liberdade. Contudo, para alguns a grande obra não passava de uma “mulata apertada em um vestido francês”, com seus prédios de belas fachadas, com interiores totalmente dissociados do que apresentavam para a rua, com plantas simples e funcionais.

A nova configuração dos terrenos ao longo da Avenida permitiu a construção de grandes edifícios, e, diferente do que aconteceu nas reformas de Paris, todos tinham cunho estritamente comercial. A predominância de grandes lojas afastou definitivamente os pequenos comerciantes, que não tinham como arcar com tais despesas, fazendo da avenida lugar exclusivo das grandes corporações, definindo um status social para esta área totalmente diferente de seu entorno, onde ainda predominava a antiga estrutura colonial.

Os critérios utilizados para o remembramento dos terrenos e o uso que acabou por dar-se a estes, definiu três setores distintos, porém integrados, na Avenida Central. O primeiro trecho, entre o largo da Prainha (atual Praça Mauá) até a rua Gen. Câmara (destruída com a abertura da Av. Presidente Vargas), por sua proximidade com o Porto, foi ocupado principalmente pelo empresariado ligado ao comércio de importação e exportação e pelos bancos ligados a estas atividades. No trecho seguinte, que se estendia até a rua São José, instalaram-se as principais atividades comerciais: as grandes confeitarias, lojas de vestuários, magazines, estabelecimentos bancários e os jornais; como o do Brasil e o do Commercio, tornando-se o ambiente ideal para o desfile das novidades e das ostentações da burguesia. O trecho final que se estendia até a Av. Beira Mar , composto por grandes lotes formados pelas áreas ganhas com desmonte de parte do Morro do Castelo e de áreas remanescentes junto a praça Ferreira Viana se caracterizou por seu cunho institucional, com grandes edifícios públicos como o Teatro Municipal, a Escola Nacional de Belas Artes e Palácio Monroe.

Com a morte do Barão de Rio Branco em 10 de fevereiro de 1912, passou a ser denominada a Av. Central de Avenida Rio Branco. Assim como seu nome original durou pouco tempo, a estrutura da própria aos pouco também começava a sofre alterações. A visão de mundo européia, francesa principalmente, que era simbolo de modernidade a época da inauguração foi gradativamente sendo substituida pela visão de mundo norte americana, a de um novo industrialismo que chegava ao Brasil, principalmente após a 1° Guerra Mundial.

Em seus 20 primeiros anos pouca coisa mudou, sofrendo apenas algumas intervenções pontuais, como a inauguração do Hotel Avenida em 1911 e a demolição do convento da Ajuda, no mesmo ano, que permitiu a criação da Praça Floriano e do que em alguns anos seria o maior polo de diversão da avenida.

Com o porto desembarcando constantemente novidades, devidamente expostas na avenida, não é surpresa o cinema ter se instalado nesta desde a primeira década, pontuando com varias salas a Av. Central. Com a demolição do convento da Ajuda surge uma grande área, que nas mão de Francisco Serrador, que adquirira um grande lote do terreno em 1917, tornaria-se a “Brodway” Carioca , com seus quatro arranha-céus, Capitólio, Gloria, Império e Odeon, inaugurados entre 1925 e 1926, formando a Cinelândia, grande centro de lazer para a população.

Com a gradativa exclusão das habitações das cercanias do centro da cidade e a ocupação da avenida quase exclusivamente por edifícios comerciais e empresarias ocasionou um fenômeno, perceptível até os dias de hoje: o do esvaziamento da Avenida durante a noite e nos finais de semana, exceto no trecho mais próximo a praça Mal. Floriano, onde concentravam-se os prédios de atividades institucionais e culturais.

Enquanto em uma ponta da avenida a modernidade é trazida pelas telas do cinema, na outra, no local onde outrora existiu o Liceu Literário Português, era erguido em 1929, ano do jubileu de prata da avenida , o maior arranha-céu da América Latina, e o maior do mundo em estrutura de concreto armado, o edifício A Noite com seus 22 pavimentos. A partir de 1936 viria a abrigar a mais importante emissora brasileira na época, a Rádio Nacional, poderoso meio de comunicação nos anos anteriores ao advento da TV.

Paralelo a esta transformações outras cirurgia urbana acontecia bem próxima a avenida. O morro do Castelo começa a ser desmontado em 1922 pelo então prefeito Carlos Sampaio. O local que dera origem a cidade agora encontrava-se tomado pela favela, consequência direta das ações de Pereira Passos anos antes. Seu arrasamento só concluiu-se durante a gestão de Prado Junior (1926-1930), época em que foi elaborado o “Plano Agache” , uma proposta de ordenamento urbanistico e embelezamento para o centro cidade, principalmente para a área gerada com o desmonte do morro e o arrasamento do bairro da Misericórdia. No ano de 1929 a revista “A Semana” apresentava em suas paginas outro projeto urbano, que visava o prolongamento da Avenida Rio Branco, idealizado por Cortez e Bruhns, a cerca de 1 km do palácio Monroe para o mar.

O concreto armado, tecnologia muito mais acessível que a estrutura em aço, aos poucos começa a mudar a cara da Avenida, permitindo a substituição dos antigos edifícios de aspiração parisiense por outros que tinham as torres americanas como modelo. A moderna avenida viu seu modelo original desgastar-se, não se mostrando condizente com os novos pensamentos. Por ser “moderna” não conseguiu se impor como monumento que merecesse a preservação de seu perfil original, o que se mostrou fatal para grande parte dos prédios existentes.