Antecedentes históricos das intervenções nas favelas
A favela, ao longo da história do Rio de Janeiro, foi predominantemente considerada um componente indesejável na estrutura urbana. Esta visão está presente no início do século, desde as intervenções do prefeito Pereira Passos (1903-1906) até o Plano Agache, nos anos 30. Sua importância e participação no contexto da cidade só era percebida e assumida para controlar a higiene pública e as epidemias. Ainda assim, por sua desordem urbana e a marginalização de sua população, a política do governo para as favelas era voltada para a sua erradicação nas áreas próximas à cidade "formal".
Quando, nos anos 40, a favela começa a se mostrar um importante núcleo de oposição política, o estado passa a repensar sua proposta em relação a ela. Surgiram alguns projetos para o melhoramento das moradias e condições higiênicas dos morros, prevenindo-se assim a ocorrência de epidemias nos bairros da cidade "formal". Entretanto, a articulação desta com a cidade "informal" (favelas) não existia. Não se havia dado atenção ao melhoramento, desenvolvimento e transformação dos espaços públicos da favela, que permanecia como um gueto, alijado da cidade.
A política dos governos, nos anos 60 e setenta, de criar conjuntos habitacionais novos e erradicar as favelas, não teve sucesso: o programa da Aliança para o Progresso, desenvolvido com a ajuda econômica dos Estados Unidos teve um desenvolvimento restrito e só foram construídos alguns poucos novos conjuntos. A tentativa de eliminação das favelas da zona sul da cidade, ocupada pelos grupos sociais emergentes, logo que a população de baixa renda foi utilizada na construção de edifícios e como pessoal de serviço nas casas, foi restrita e não mudou a presença dos favelados perto de bairros nobres de São Conrado, Lagoa, Copacabana, Ipanema e Leblon. A Rocinha, uma das maiores e mais consolidadas favelas da cidade, tem cerca de cinqüenta mil habitantes e o Vidigal quase 10 mil. São semelhantes aos grandes assentamentos habitacionais de baixa renda na zona norte, como o Complexo de Maré e do Alemão.
Com o programa Favela-Bairro, a proposta da Prefeitura é integrar a favela à cidade formal, e absorver um milhão de habitantes que são excluídos dos serviços urbanos, como cidadãos da cidade. Uma população pobre que tem valores, cultura e tradições que são urbanas, não diferenciados dos existentes na cidade formal.
As estruturas urbanas e arquitetônicas que identificam as funções sociais não deveriam ter diferenças na cidade formal e informal. O programa é baseado na premissa que a interação dos valores culturais e funcionais do espaço urbano devem ser acessíveis a toda a população. O simbolismo e os significados formais e espaciais criados pelo saber profissional contemporâneo não podem constituir um privilégio das minorias que habitam a zona "nobre" da cidade - mais densa e rica - ao longo da costa, desde o Flamengo até a Barra da Tijuca, mas também um direito dos cidadãos que ocupam 80% do território interior do Rio, anônimo, cinza, a cidade noir definida pelos críticos sociais.
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